A inutilidade diária (ou como comecei a escrever sobre p*taria e trabalho)
- Kami Girão

- 7 de mar. de 2025
- 5 min de leitura

O ano era 2021. Mais especificamente, entre julho e agosto. Lembro porque eu estava acomodada no quarto verde, após ter feito uma estação de trabalho mal-ajambrada na minha velha bancada da adolescência, cheia de papéis me rodeando e uma cama bagunçada atrás. Em uma das janelas de navegação, Rayssa Leal deslizava sobre corrimãos em busca da sua primeira medalha olímpica. Na outra, eu escrevia a primeira coisa verdadeiramente diferente da minha carreira.
Até então, eu não havia cogitado escrever clichês, mas minhas amigas Bia Carvalho e Luciane Rangel me deram um incentivo. Apenas um pseudônimo e pronto: eu faria um bom negócio entrando nesse mercado naquele momento, em que eu estava desempregada e lidando com as feridas de um assédio moral. CEOs faziam muito sucesso à época. "Pois pronto, vou fazer a história de um CEO imbecil e de uma assessora que quer esganar o pescoço dele de cinco em cinco minutos."
Esse é o início da minha jornada com Meu Chefe é um Inútil, um romance despretensioso cujo propósito era apenas me fazer juntar uns trocados a cada três meses através da Amazon. Sem muito enredo, mas com putaria o suficiente para assegurar algumas calcinhas molhadas - pelo menos, era essa a minha ideia primordial. O problema? Eu tinha muita coisa para falar.
Otome games, traumas e ódio

A princípio, dois personagens de diferentes jogos otome game (para quem não conhece, são jogos centrados em romances, majoritariamente conduzidos por personagens femininas) me inspiraram para criar o casal que estrela esse romance. Por serem não apenas de enredos e universos completamente diferentes, mas terem personalidades cem por cento opostas, pensei que seria uma ótima maneira de criar a dinâmica da dupla central. Como os jovens diriam hoje, grumpy x sunshine.

Logo no início, porém, quando nossa heroína proletária Júlia começou a se formar na narrativa em primeira pessoa, percebi que não conseguiria focar apenas em cenas de teile, e puxe, e pegue, e naipe. Júlia trabalha, tem raiva, está desiludida. Uma moça millennial e com questões tipicamente millennials, como ter estudado tanto para, no fim do mês, ganhar apenas metade do seu piso salarial e, com sorte, não ser demitida. Júlia a princípio recebe tão pouco que sequer tem a chance de alimentar o sonho de, quem sabe, comprar a casa própria - mas talvez ela possa se organizar para assistir ao show do seu grupo favorito de k-pop. Afinal, algum bônus precisa existir no meio de tanto ônus.

Na outra ponta, temos Lorenzo, um mestre em Meio Ambiente que, até então, não conseguia trabalho por ser "qualificado demais". Já resignado a trabalhar na Uber, Lorenzo tira a sorte que todo brasileiro quer ter: recebe uma herança milionária do pai que o abandonou ainda nas fraldas. A ficção me abriu margem para sonhar um pouco e dar um destino mais generoso a esse herói do século XXI. Primeiro objetivo de Lorenzo quando consegue acessar à sua piscina particular do Tio Patinhas? Reformar a casa do avô. Atire a primeira pedra quem nunca desejou dar um lar melhor à família.
Ambos os personagens me davam margem para falar de uma realidade que não era apenas minha, mas facilmente encontrada nos inúmeros posts desesperados no LinkedIn. O "sim" não estava chegando e, se vinha, era desenhado na mais clara exploração do trabalhador. Salários cada vez mais baixos, cobranças irreais, exigências de vestir camisas que não se adequam aos corpos que batem ponto nas primeiras horas do dia. E as recusas, então? Distantes, redigidas por Chat GPT, textos padronizados enviados pela Gupy. Isso, é claro, para não falar das vagas fantasmas. Escrevi muito sobre isso ano passado, durante os dez meses em que fiquei desempregada e com completo pavor de enviar qualquer currículo. Ainda assim, não era o suficiente.
Não era porque minha realidade e meus traumas também precisavam ser sublimados. Eu tinha (tenho) raiva e muitas palavras entaladas na garganta, humilhações que não estão redigidas na minha carteira de trabalho. Uma delas, inclusive, aconteceu na minha última demissão em fevereiro, fantasiada de cuidado quando, na verdade, foi apenas capacitismo, discriminação e psicofobia para com meu recente diagnóstico de autismo. Eles seguem enquanto minhas feridas supuram, meu receio de falar com desconhecidos aumenta e meu terror para sair de casa agiganta.
Deixei morrer na garganta e amargar na língua, escondido atrás de um sorriso vago. "Algo sobre minhas entregas?", foi o que realmente perguntei, com a agenda em punho para apresentar todos os meus resultados. Não, nada. Para reforçar que eu valia o investimento, mostrei ainda assim todas as minhas atividades – as concluídas, as em andamento, as finalizadas. Fábio permaneceu calado. Não havia o que alegar diante do óbvio. "Continue assim", e deu por encerrada a reunião.
Trecho de Meu Chefe é um Inútil
Aprendi com a escrita desta história que humor também é arma. Rir do que aconteceu também é rir dos nossos algozes, dar-lhes julgamento que nenhum júri seria capaz de entregar. A consequência, esta fica comigo, mas existe força quando uma experiência ressoa no outro. E no outro. E no outro. É como dizem pela internet, "nenhuma experiência é individual". Foi rindo sozinha, em uma tarde de domingo dedicada à escrita, que percebi que, de fato, eu não estava querendo apenas uns trocados da Amazon com minha própria pornochanchada literária. Eu sou uma trabalhadora brasileira e com muita história para contar.
Tapas, publicação underground, daqui para frente

No início do carnaval, resolvi que não esperaria finalizar a história para, só então, publicá-la. Sou cria de fanfiction, da publicação independente e underground viabilizada pela internet, caótica, livre. Resolvi postar, mais uma vez, a história em sites que disponibilizam ferramentas para esse tipo de coisa, e troquei o Wattpad pelo Tapas. Acima de qualquer coisa, postar com regularidade me ajuda a manter uma rotina, algo necessário e urgente para minha saúde mental. E, além do mais, é uma forma de eu processar também minhas próprias questões com trabalho, das mais novas às que ainda estão cicatrizando.
Semanalmente (podendo se estender para quinzenalmente), às segundas-feiras, um novo capítulo de Meu Chefe é um Inútil será publicado no Tapas, às oito em ponto. É meu próprio expediente, e convido a todo mundo para iniciá-lo comigo. O link de acesso é esse aqui.
E se você quiser entrar no clima da história, não deixe de conhecer a playlist. Só clicar no botão abaixo.



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